Damon Krukowski e Naomi Yang despontaram no cenário do rock alternativo americano em meados dos 80. Respectivamente baterista e baixista, a dupla acompanhou o frontman Dean Wareham no Galaxie 500. Em 1991, o grupo acabou porque Dean decidiu que não tocaria mais com a galera e montou um novo projeto, Luna, revisitando praticamente a sonoridade concretizada com o Galaxie 500.
Por essas e outras, a dupla remanescente pensou em abandonar o showbizz, mas por insistência de seu antigo produtor, entraram em estúdio e fizeram suas primeiros registros como um novo projeto musical. A princípio começaram como Pierre Etoile, até que resolveram batizar o grupo simplesmente como Damon & Naomi. Um nome simples como a delicada atmosfera que empreendem em disco e em shows.
Mais de uma década depois, eles fazem sua primeira excursão pelo Brasil, ao mesmo tempo que seus três primeiros álbuns são lançados aqui via Trama: More Sad Hits (1992), The Wondrous World Of Damon & Naomi (1995) e Playback Singers (1998). Mas o mood da atual sonoridade do grupo e da turnê brasileira baseia-se principalmente nas polaróides sonoras de seu álbum mais recente: o ao vivo Song to the Siren (2002). Retrato fiel dinâmicas do som do grupo ao vivo, após a adesão do guitarrista Michio Kurihara, músico do combo psicodélico Ghost, que completa o trio nesta vinda ao Brasil.
Entramos em contato com o gente fina Damon Krukowski pouco antes de o grupo embarcar para o Brasil. A prosa rolou sobre vários assuntos: tais como a encorpada na sutil musicalidade do grupo após a contribuição efetiva de Kurihara concretizada em seu álbum mais recente, as mágoas do passado morto e enterrado junto ao ex-amigo Dean Warehan ou mesmo a MPB clássica, com menções ao legendário guitar hero Lanny Gordin. Confira!
Loud! – Antes de tudo: quais as suas expectativas sobre essa turnê brasileira?
Damon – Realmente não sabemos muito o que esperar, mas estamos muito felizes por virmos ao Brasil. Amamos demais a música brasileira, grandes artistas como Milton Nascimento e Caetano Veloso. Nos é surpreendente o simples fato de que trazemos nossa própria música a um país com uma musicalidade tão forte.
Loud! – Fale um pouco sobre seu álbum mais recente, Song to the Siren? Por ser um álbum ao vivo, poderíamos dizer que ele apresenta a evolução do som de vocês, em comparação aos trabalhos anteriores? Como você descreveria esse álbum tendo em vista toda a sua discografia?
Damon – Acho que fizemos tantos álbuns até hoje porque sentimos que aprendíamos mais algumas coisas sobre música, algo que ainda não havíamos expressamos em nossos álbuns anteriores. Então acontece o mesmo com Song to the Siren, um álbum ao vivo: em apresentações ao vivo, aprendemos muito sobre cantar, diferentemente do modo que aprendemos em estúdio. Era essa abordagem do cantar, e o modo como isso altera nossas canções, que quisemos documentar em Song to the Siren.
Loud! – Como vocês sentem ao perceberem seu trabalho alcançando vários lugares ao redor do mundo? Em algum dia vocês imaginaram que seus álbuns seriam lançados no Brasil?
Damon – Para nós, antes de tudo, um dos maiores prazeres sobre sermos músicos é essa possibilidade de viajarmos e nos comunicarmos com pessoas de outras culturas, que falam outros idiomas mas que amam música, em geral. Como mencionei, amamos música brasileira e então, para nós, é realmente um sonho podermos, de maneira modesta, proporcionar algum retorno a isso tudo.
Loud! – Sua música é tão delicada, tão suave... Vocês já se imaginaram fazendo música com volume mais alto, como uma banda barulhenta ou algo do tipo?
Damon – Sim, especialmente porque tocamos vários anos em uma das mais barulhentas bandas que ouvi até hoje, Magic Hour! Era uma banda formada pelos dois caras que comandam o selo underground Twisted Village, guitarristas que tocam no volume máximo. Algumas músicas do Magic Hour chegavam aos 20 ou até aos 30 minutos de duração! Era um lance bastante psicodélico!
Loud! – De onde vem a inspiração para as canções que vocês escrevem? Você poderia comentar sobre esse processo?
Damon – Na época do Galaxie 500, escrevíamos as canções fazendo mudanças de acordes o tempo todo, desenvolvendo os ritmos, até finalmente adicionar as linhas melódicas apenas no final desse processostyle="mso-spacerun: yes"> Atualmente, a construção melódica e as letras possuem um papel central em nosso trabalho. E caso as letras não sejam desenvolvidas de forma significativa, nós simplesmente abandonamos a melodia.
Loud! – Você se incomoda em dizer alguma coisa sobre suas referências musicais? Quero dizer, os artistas que influenciaram seu som, como Nick Drake e Tim Buckley...
Damon – Escutamos os mais variados tipos de música. Mas, com certeza, ouvimos vários artistas de acid-folk como Tim Buckley, Tom Rapp, assim como bandas de folk rock como Fairport Convention também significam muito para nós. E Dylan também sempre está lá, em algum lugar!
Loud! – Vocês estão tocando com o guitarrista Michio Kurihara, integrante do Ghost. Fale um pouco da contribuição dele no som do grupo e também sobre o que vocês acham das experiências sonoras psicodélicas de sua banda. Kurihara também acompanhará vocês nesta turnê pelo Brasil?
Damon – Vai sim e estamos muito contentes por trazê-lo conosco ao Brasil. Nos apresentaremos como um trio, com a mesma formação de nosso álbum ao vivo recém-lançado, Song to the Siren. Kurihara é um ótimo músico e também bastante intuitivo. É também um dos melhores guitarristas que já vimos. Apesar disso, é um cara bastante modesto e não costuma utilizar os típicos clichês de rock. No entanto, podemos dizer que ele é um guitar hero sem a menor dúvida. Por falar nisso, o que você me diria sobre Lanny, guitarrista creditado em alguns álbuns de música brasileira dos anos 60.
À propósito, o que você me diria sobre Lanny, guitarrista creditado em alguns álbuns brasileiros do anos 60? Seu som é demais!
Loud! – Ah sim, claro! Lanny Gordin é um guitarrista legendário, infelizmente a classe artística não lhe dá o devido valor. Ele andou meio esquecido por alguns anos, passando necessidades, mas volta e meia alguém o redescobre. Ele tocou em Araçá Azul, um dos discos mais bacanas de Caetano Veloso. Eu adoro o tipo de pegada que ele impõe ao instrumento: algo meio caótico, mas também bastante técnico. Lanny consegue tocar delicado e selvagem ao mesmo tempo, é a caraterística que mais admiro em músicos. No show do Rio, vou levar para você alguns CDs bacanas de MPB. Fale um pouco sobre seu trabalho com a editora Exact Change, voltada à reedição e tradução de obras de literatura experimental.
Damon – Quando começamos com a Exact Change, várias pessoas que conhecíamos começavam a lançar pequenos selos. Então nos perguntamos: por que não fazer o mesmo com livros? Naomi lida com o design destes trabalhos e eu trabalho com a parte editorial. Escolhemos publicar livros que amamos e que sentimos a necessidade de estarem disponíveis, os quais as outras companhias não estão publicando, geralmente por questões comerciais. Não é trabalho fácil, mas curtimos muito.
Loud! – Fale alguma coisa sobre o retorno que vocês recebem pelo trabalho com a ONG Musicians 4 Peace.
Damon – Após os atentados de 11 de setembro, sentimos que a reação nos EUA era muito extremista e que só poderia trazer mais tragédia. Músicos não são políticos, mas isso não quer dizer que eles não têm nada a oferecer numa situação dessas: isso porque é necessário justamente expressarmos a verdade pura e simples. Foi isso que John Lennon fez nos anos 60, acho – ele simplesmente lembrou as pessoas de que a paz é melhor do que a guerra. Então por que não escolher a paz?
Como resultado, temos obtido resposta da parte de músicos pelo mundo inteiro. E também de músicos de outros gêneros, mas que admiramos bastante: do punk rock (Richard Hell) à música clássica (Frederic Rzewski). Mas também recebemos nossa cota de hate mails. Nos EUA, não é tão fácil de se manifestar contra o governo no momento – todos se “embrulharam na bandeira americana”, como dizemos. E tentamos abafar essa dissensão, que só enfatiza a importância de nos manifestarmos, no sentido de abordarmos alternativas para a situação, baseadas na benção do livre arbítrio em si mesmo.
Loud! - E sobre o Magic Hour, o grupo que vocês formaram após o Galaxie 500? Fale um pouco sobre os três álbuns que vocês lançaram.
Damon – Magic Hour era uma banda despirocada. Naomi e eu cuidávamos da seção rítmica. Não escrevíamos nenhuma das canções, como acontecia na época do Galaxie 500 e em nossos discos como um duo. Simplesmente curtíamos tocar baixo e bateria. Os guitarristas eram Wayne Rogers e Kate Biggar, conhecidos no underground por fazerem um som barulhento e psicodélico. Tanto é que vários fãs do Galaxie 500 realmente odiaram aquela banda! Mas, para nós, era uma oportunidade para explorarmos um pouco de nosso amor por bandas como Can e Soft Machine. Também aprendemos muita coisa sobre nossos instrumentos naquela banda.
A banda durou apenas três álbuns, cada um mais estranho que o anterior. Acho que o segundo álbum talvez seja o melhor acabado, se chama "Will They Turn You On or Will They Turn On You" (slogan para um antigo anúncio para uma campanha anti-drogas), e inclui a maior canção que fizemos e que acabou se tornando nossa “In-A-Gadda-Da-Vida”. Se chama “Passing Words”.
Loud! – Recentemente, todos os albums do Galaxie 500 também foram lançados no Brasil. Na época, entrevistei Dean Wareham e ele me disse que não escutava mais os discos que vocês fizeram juntos. E em relação a vocês? Você e Naomi ainda ouvem seus discos com o Galaxie 500 atualmente?
Damon – Não, nunca! Já se passou muito tempo e embora tenhamos várias lembranças bacanas daquela época, também lembramos de coisas chatas. E posso dizer que não estou pilhado em revive-las...
Loud! – Vocês ainda mantêm contato com Dean Wareham?
Damon – Não mantemos.
Loud! – Mas poderíamos dizer que vocês ainda são amigos? Vocês continuam se falando eventualmente ou alguma mágoa prevaleceu na relação entre vocês? Existe a possibilidade de, algum dia, vocês tocarem juntos novamente?
Damon – Não, não somos mais amigos. Crescemos juntos, íamos para a escola juntos e conhecíamos nossas família. Mas algumas vezes seus amigos de infância se tornam pessoas diferentes do que você poderia imaginar algum dia... Ele deixou de ser a pessoa que conhecia como meu amigo ainda nos tempos em que tocávamos juntos. E, agora, vários anos depois, eu só tenho a certeza de que não tenho a menor idéia da pessoa que ele é atualmente.
Loud! – Qual a sua opinião sobre o Luna? Quero dizer, o estilo de composição de Dean não mudou muito desde os tempos do Galaxie 500. Você percebe alguma evolução em seu trabalho como compositor? Ele chegou a me dizer que atualmente se considera um letrista melhor do que era nos tempos do Galaxie 500.
Damon – Não escutamos sua música o suficiente para sabermos, embora o que ouvimos não nos é interessante. Enquanto estávamos no Galaxie 500, eu e Naomi sempre ressaltamos o perigo de a banda se tornar uma paródia de si mesma. Até porque é fácil você repetir eternamente um mesmo padrão sonoro, uma vez que você desenvolve uma sonoridade que funciona. A indústria musical ama quando você faz isso e até alguns fãs adorariam essa idéia. É algo mais confiável. Mas pergunto: ainda podemos chamá-la de “música”, uma vez que você sabe como reproduzir esses mesmos padrões sonoros tão facilmente? Sinceramente, acredito que para fazer música, você precisa estar inteiro no lance. Você tem de arriscar a todo momento porque é assim que você comunicará suas emoções por intermédio da música. Caso contrário, você estará apenas vendendo um estilo.
Loud! – Em relação a todos os projetos musicais, existe algum álbum favorito em toda a sua carreira?
Damon – Sempre sentimos muito orgulho de nosso trabalho mais recente. Ele representa absolutamente nosso momento atual. Então, na verdade, me sinto orgulhoso pelo show que preparamos para essa turnê brasileira, junto com Kurihara! É um baita prazer para nós a possibilidade de tocarmos com ele e também sua contribuição nos desafia a abordar nossas velhas canções a partir de novas concepções. E espero que a galera aí no Brasil curta bastante!